O problema da violência estrutural de gênero na sociedade brasileira
A prefeitura postou no dia 6 de outubro de 2025 uma campanha contra a violência contra a mulher. O resumo consiste em perguntar mulheres importantes na vida dos homens e posteriormente escolher alguma destas para sofrer agressões (física, psicológica ou sexual). Obviamente a resposta foi unânime: Não há como escolher qualquer opção. Mas uma coisa curiosa sobre esse vídeo evidencia um traço estrutural da nossa sociedade.
Homens NÃO SABEM o que é violência.
ou melhor
Homens SABEM o que é violência, apenas não consideram como.
Primeiramente, é de interesse entender o que é e como se estrutura o conceito de VIOLÊNCIA na sociedade (Segundo declarações oficiais de: UNICEF, Save The Children (org) e A Constituição Brasileira. link). De acordo com as pesquisas do "Projeto Calçada", existem 15 principais formas de agressão contra a criança e o adolescente, são elas: Abuso físico, negligência, exposição a violência doméstica, abuso emocional, maus-tratos psicológicos, bullying, abuso de substâncias, alienação parental, abuso sexual, exploração comercial, abuso espiritual, trabalho infantil, práticas tradicionais prejudiciais, abuso tecnológico e abuso financeiro.
De acordo com a Humanists Internacional, uma organização não governamental a favor do direitos humanos, 2 práticas tradicionais desenvolvidas e cultivadas por crenças ainda constavam ser COMUNS em certas partes do planeta (2020, link). Elas são: MGF (Mutilação Genital Feminina, que consiste em remoção total ou parcial das partes externas da vulva da menor, com intenção de controle sexual e também estética) e o Casamento Infantil. Ainda no tema de Casamento Infantil, a organização Girls not Brides diz que mais de 2,2 MILHÕES de menores são casadas no Brasil ou vivem em situação correlata.
Segundo a Revista Ciêntífica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento (link) a institucionalidade do patriarcado se deu ao advento de dogmas religiosos e perpetuação de papéis de gênero.
"No entanto, como o contingente de mulheres portuguesas/brancas era bem menor, as mulheres africanas e indígenas foram escravizadas e consideradas objetos sexuais; em outras palavras, serviam para satisfazer os homens (brancos e portugueses), no que tange às práticas sexuais. Pinheiro (2008) acrescenta que outra característica do patriarcado é o controle da sexualidade da mulher, pois, enquanto a sexualidade do homem é incentivada, a da mulher é reprimida."
Tais dogmas e tabus sociais são até hoje passados à frente e perpetuados como regra, principalmente em instituições religiosas. Em um vídeo denominado "O que é uma MULHER SUBMISSA? (Estudo Bíblico)" pelo canal Jesus e Bíblia, o pastor Diego Nascimento cita uma frase retirada da Bíblia Sagrada (Efésios, 5:22,23): "Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, assim como ao Senhor; Por que o marido é a cabeça da mulher, como também cristo é a cabeça da igreja, sendo ele o próprio salvador do corpo.". O pastor ainda complementa dizendo: "(...)O princípio que o apóstolo Paulo utiliza em todas as suas cartas e em todas as suas recomendações é o princípio do Gênese: Em que Deus criou primeiro Adão, depois Eva. (...)"
Mesmo parte da igreja e de líderes religiosos demonstrando que a submissão da mulher não é ABSOLUTA e irremediável, não é este o retrato brasileiro. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Instituto Datafolha, 42,7% das mulheres que presenciaram algum tipo de violência doméstica dentro do próprio lar são evangélicas, enquanto os outros 35,1% são católicas. Isabella Matosinhos, pesquisadora do Fórum e Mestre em sociologia, diz: "No Brasil, é comum encontrar centros de acolhimento, inclusive com assessoria jurídica, em estabelecimentos religiosos. Isso pode acontecer tanto no catolicismo quanto nas religiões evangélicas. Mas formulamos hipóteses no sentido de que as religiões são muito firmes na questão do matrimônio, bem como sobre o papel da mulher no casamento.”
Todos estes dogmas são cultivados pela sociedade patriarcal como regra e tratados como incontrovertíveis. Em uma pesquisa do ano de 2013 pelo Insitituto Avon, Percepções dos Homens sobre a violência doméstica contra a mulher (link), 56% dos homens assumem terem tido práticas violentas (sendo o mais predominante o xingamento e o empurrão) contra companheiras ou ex-companheiras, um total de 8,8 MILHÕES. Ainda na pesquisa, estes homens (geral) declaram que "O adulto mais bravo na infância" era o próprio pai, e dos agressores, 81% já apanharam na infância de algum adulto.
Mesmo parte dos entrevistados não produzindo alguma violência física, produziam violências domésticas e as achavam aceitáveis. A maioria, por exemplo, acha inaceitável que a mulher: "Fique bêbada", "Saia com amigos sem o marido" ou "Use roupas justas e decotadas". Preferindo ainda que a mulher seja a dona da casa, sendo 89% dos homens os que acham INACEITÁVEL que a mulher não mantenha a casa em ordem. Além disso, mediante às agressões explícitas contra a mulher, 36% dos homens acha aceitável conversa ao invés da busca de ajuda diretamente a delegacia da mulher.
A violência contra mulher é um problema mais do que real e vivo na sociedade brasileira, mas NÃO HAVERÁ mudança enquanto não houver CONSCIENTIZAÇÃO DOS HOMENS PARA COM O PROBLEMA. Não é sobre derrotismo, mas sobre entender que os homens SÃO parte do problema, não como agressores diretos, mas como cultivadores da cultura patriarcal de submissão sexual e moral feminina nas relações interpessoais. É absolutamente necessário a intromissão de conversas de cunho violento dentro de círculos de convivência majoritariamente masculinos.
OMISSÃO É RESPOSTA, NÃO SE FAZ HOMEM SEM DIGNIDADE E RESPEITO PELO PRÓXIMO.
Termino o texto com uma mensagem: Se você presencial violência doméstica, sexual, moral ou quaisquer outras contra meninas ou mulheres, DENUNCIE. Não sejamos perpetuadores desta cultura de brutalidade de morte. Dê um BASTA!

Comments
Post a Comment