... 100 Homens contra 1 gorila?

 

 
Imagine o seguinte cenário: 

    Você é um gorila dentro de seu habitat natural. Subitamente é atingido por um projétil que o faz dormir. Acorda com uma sensação de tonteira estranha e dor em algumas partes do corpo... olha ao seu redor e está em um coliseu. Cheio de cadeiras e nessas cadeiras, pessoas, humanos. Aquela espécie que gosta de andar em duas patas e com o peito estufado de ego e de rancor.

    Você, acorrentado, começa a se desesperar pois não quer estar preso naquele ambiente. Mas, antes que possa fazer qualquer coisa, vê um portão se abrindo e uma série de incontáveis homens se deslocarem do fundo ao centro do coliseu. Essa gente estranha sendo aplaudida e venerada, parecem felizes e mesmo que com medo, algo dentro deles chama atenção. Um sentimento estranho como se estivessem sendo aplaudidos por algo que não deveria.

    Tiram suas correntes. Você está liberto, ou acha que está. Procura uma saída, não há. Só sobra aqueles homens e nada mais. Eles começam a gritar, berrar, olhares estranhos e feições bizarras, alguns pintados, outros vestidos, outros nus, um deles até vestido como.. você. Uns grandes e outros pequenos. Aquilo é nada além de assustador. Você então vê eles correndo para cima de você.

    Você faz todo o esforço necessário para exterminar aquela gente, para ser então liberto. 1, 2, 3, 4, 5, 6... 7... São muitos. São tantos e você começa a ficar cansado. Então, no seu ponto mais frágil, o cansaço, aqueles homens com toda sua bestilialidade e amoralidade correm para cima de você. Socos, chutes, arranhões e mordidas. Tórax, Pernas, Braços, Genitálias, Mãos, Cabeça.

    Não há conforto em ser forte, naquele momento você é submisso a seres tão próximos do diabo quanto o próprio. A cena o deixa pensativo... Uma arena onde humanos gritam com felicidade e ódio para que outros humanos destrocem com a vida de um ser sequestrado, dopado, abusado e torturado seja... exterminada aos poucos.

    Carne por carne, peça por peça você vai deixando a sua vida para trás, como se sua vida fosse uma corda sendo cortada por uma faca cega. Alguma hora vai cortar, mas talvez demore. A dor sobrepõe todo tipo de pensamento, angústia, rancor e tristeza já não existem mais, apenas a dor. Os sentidos não são percebidos da mesma forma, o que ouve parece turvo, e sua visão parece não existir mais.

    Tanto tempo de guerrilha, mas você ainda vivo. Em carne viva, aberto, quebrado, na sua forma mais pútrida. O mais triste? Ainda respirando, um fiapo tão minúsculo de vida quanto de existência. Mas calma, está tudo bem, um humano vendo que o animal não morreu pula em seus pulmões com as suas duas pernas, esmagando-os de uma vez por todas.

    Você não tinha noção do que era aquilo, por que foi parar ali e nem por que eles o estavam atacando. Fato é que a espécie a qual você estava lidando não eram leões lutando para proteger seu território. Elefantes para proteger suas proles. Focas para salvar suas vidas de predadores. Hienas para conseguir comida ao rebanho. Você estava muito errado.

    Essa espécie é conhecida por ter um livro, a eles denominado de "Constituição". Neste livro é listado tudo aquilo que não pode ser feito, o que é "Crime". Dentre estes livros estão coisas abomináveis como: Estupro de vulnerável, abuso sexual, homicídio, racismo, sequestro... tudo de pior que  você sequer possa imaginar.

    Seus livros contam suas histórias. Histórias de rir, chorar, mas principalmente histórias sobre mortes de crianças, animais, povos originários, mortes por bombardeios, armas de fogo. Seus quadros mostram um pedaço de uma mente perversa, suas poesias mostram seus modus operantes, suas construções o tamanho do seu ego.

    Seu erro, amigo, foi acreditar que sua pura força física fosse capaz de lidar com seres que, mesmo sem qualquer tipo de característica física marcante, conseguem abdicar justamente daquilo que os faz são, sua ética e moral. Como lidar com seres que torturam seu Deus? Matam seus semelhantes? Destroem seu lar?  Explodem e ateiam fogo em casas de inocentes?

    Acredite se quiser, morrer foi o melhor feito que poderia lhe ter acontecido. Não esqueça que sua mulher e filhos ainda estão dormindo naquela sala branca com luvas e bisturis.

 

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