Do chicote à algema: Uma historieta sobre branquitude.


Pequetito aviso.

A imagem acima se trata de uma Pseudociência chamada de CRANIOLOGIA. Não compactuo nem um pouco com o retrato. Na verdade, é uma prova de racismo explícita que veremos mais à seguir.

    A palavra "branquitude" (em sua etimologia) pode ser as vezes corrigida pela palavra de alguma semelhança, "branquidade". Tenho certeza que a maioria das pessoas que verão este texto não serão negros, portanto, gostaria de retratar como "branquitude". Disponho e compartilho das mesmas opiniões da autora negra "Edith Piza". Em seu texto publicado no "Simpósio Internacional do Adolescente" em 2005, ela diz:

"Ainda que necessite amadurecer em muito esta proposta, sugere-se aqui que branquitude seja pensada como uma identidade branca negativa, ou seja, um movimento de negação da supremacia branca enquanto expressão de humanidade. Em oposição à branquidade (termo que está ligado também a negridade, no que se refere aos negros), branquitude é um movimento de reflexão a partir e para fora de nossa própria experiência enquanto brancos." 

    Então, minha visão enquanto expositor desta opinião e, no momento, encarregado deste conhecimento, prefiro utilizar da palavra branquitude. Explicitamente, desejo colocar aqui o branco como indíviduo-raça passível de reflexão. Claro que é um retrato geral, não se trata de uma verdade absoluta e, também, não diz respeito a você, provavelmente. Caso se sinta incomodado, terei feito o meu papel, caso se sinta ofendido, continue lendo.

 

 

1. Intuito.

    Claro que não coloquei o apresentador Danilo Gentili por puro bel prazer e conveniência, existe um motivo. Recentemente vi um vídeo do criador de conteúdo Tiago Santineli, onde o mesmo responde à algumas afirmações e textos do blog do apresentador. Mas aqui, gostaria de pegar apenas algumas, já que, o restante segue pelo mesmo rumo. 

"Agora no Telecine King Kong, um macaco que depois vai para a cidade e fica famoso pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

"O cara esperou uma gostosa ficar bêbada para transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá para um cara desses: Gênio"

"Sério, @LasombraRibeiro vamos esquecer isso... Quantas bananas você quer para deixar essa história para lá?"

    Assim como no aviso, pretendo, e vou, utilizar cortes acadêmicos ao longo do texto. Ao todo, serão 5 artigos com temas antirracistas.

    Sobre essas falas completamente infames e desprezíveis do apresentador Danilo, antes que alguém pense, não são antigas. Na verdade, continuam recentes, palavras do Danilo à imprensa:

"Estou deletando tuítes antigos onde passo mensagem de consciência social buscando aprovação. Estou deixando só as ofensas e piadas de mau gosto. Eu errei. Me arrependi de ter tido momentos de fraquezas onde acabei agindo igual um cagalhão deixando a zoeira de lado. Eu sei que jamais conseguirão assassinar minha reputação. Pois eu não tenho uma."

    Então sim, absolutamente tudo que publicou, segundo o próprio, são "piadas de mau gosto". Dito isso, podemos continuar.

    Aqui já vemos um retrato claro e objetivo sobre o privilégio que um homem como o Danilo possui. Na primeira imagem, inclusive, faz referência a uma questão racista dentro do futebol, onde o jogador, negro, se relaciona com uma mulher branca para aparecer nas redes. Emerson Royal,Vanderlan Barbosa, Angelo Gabriel e o mais recente Endrick Felipe. Mas aqui gostaria de me atentar ao Endrick, pois as fotos de seu casamento com certeza são um atentado cultural de tamanho inestimável.

    Visivelmente, o fato da esposa branca é o que menos assusta. Tudo no casamento é branco, qual o problema? O embranquecimento do ator negro. A última vez que Endrick apareceu na mídia com seu pai foi numa propaganda. Últimas vezes estava de férias, passou com a mulher no japão. Lar de mãe negra é onde a nora aparece raramente, férias, Europa e Ásia é morada. Casar na adolescência com esse contexto é realmente assustador. A mãe de Endrick, Cintia, antes do casamento, postou:

"Eu vou falar rasgado: não respeita tua casa, não respeita a tua vida, não respeita a tua história e você curte, comenta, compartilha, manda beijo e vai no aniversário. É uma quebra de princípio." 

    Mulheres brancas e modelos são mulheres para casar, um padrão que só um negro tão famoso e jogador de futebol conseguiria atingir. O negro embranquecido consegue chegar talvez a esse nível, e aproveita então seu "privilégio" de adquirir uma mulher branca como artigo de luxo ao lado de suas roupas de grife. Maria Helena Weber, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fala em seu artigo "visibilidade e naturalização do racismo":

"Coexistente à resistência, Gonzalez (1984) percebe a operação de uma lógica de dominação que tenta domesticar os negros, naturalizando o próprio racismo e as características “europeias” que os brasileiros atribuem a si mesmos, negando a origem africana que perpassa seus costumes e sua formação. Gonzalez recorre à psicanálise para entender a neurose que surge em sintomas de obsessão pelo branqueamento." 

     Esse projeto é conhecido pela ciência e foi aplicado no Brasil. Após a libertação precoce, inútil e depreciativa do negro no Brasil, cultura estrangeira foi importada por 2 principais motivos: Genes e falta de Mão de obra. Uma cidade e que oprimia seu povo, como diz Nelson Rodrigos referencia Jean Paul Sartre ao chegar à "Cidade Maravilhosa":

"(...) Eis a nossa paisagem: — os cargos estão aí, as funções estão aí, as estátuas estão aí, e não vejo os negros. Ninguém esculpe um negro. Ninguém põe um negro montado num cavalo de bronze. As casacas estão aí e não vejo negros de casaca. E os negros que foram para a história estão lá humilhados e ofendidos." 

    Tudo isso é apresentado de forma a demonstrar que, ao contramão do que Danilo fala, Não é uma piada. Algo que possui peso deve ser levado a sério e não tratado como piada. Mas é uma fala que possui em seu cerne, a branquidade. Quando uma frase tal qual a de Danilo é proferida desta forma, é visível o impacto social. É feita de baixo pra cima, do característico opressor, ao historicamente oprimido. À graça então, se torna o negro estar com uma mulher branca. Isso, é claro, por que estamos tratando do homem negro, se entrarmos na sina da mulher negra, chegamos a buracos inimagináveis.

    Ainda no texto de Weber, existe uma fala (referenciada de outro autor) que possui peso neste assunto:

"Conforme Hall (1997), a representação ― ou seja, o processo de produzir e formar um significado a partir de imagens e textos ― não é necessariamente consensual e pode ser considerada uma distorção do real. Para o pensador, a representação não é um processo decorrente de um acontecimento mas parte dele, não podendo ser dissociada do próprio. As práticas de significação passam por um trabalho simbólico, em que a interpretação é feita a partir do que compreendemos. Por isso, podemos pensar que toda representação, seja de um estado ou de um sentimento passa por uma forma de compreender o mundo." 

    Quer dizer, então, que o processo de construção estrutural, contextual e de significado de um item, nesse caso da piada, não é NECESSARIAMENTE consensual. Ou seja, não é entendido pelas partes como tal, e mais, não é obrigado a ser. "Interpretação é feita a partir do que compreendemos", explicitamente, ser piada para você, pode não ser piada ao outro, e quando se faz ofensa/descriminação declarada é crime.

 

2. Importância.

   O Que é óbvio para mim não é óbvio para você, e por conseguinte, necessário de explicação. Factualmente nada é inerente de um único agente, isto é, nada é contido em INDIVIDUALIDADE. A história do racismo é multifacetada e permeia âmbitos diversos. Como diz Aline dos Santos, mestre de linguística pela Universidade Federal de Alagoas, em sua tese:

"Assim, o Racismo surge a partir do conceito de raça, sendo um fenômeno social, histórico, ideológico que opera coletivamente e em grupos sociais que se consideram diferentes. Além disso, entendemos que o racismo é um fenômeno comportamental, socialmente construído, que opera a partir das raças que se consideram superiores as demais."

    Não há comprovação histórica-científica-sociológica que em algum momento, estruturalmente, existiu uma sobreposição (em formato de classe, privilégio econômico, social ou racial) do negro (ou outras demais) para o branco. Por isso dito que não se compreende racismo como algo sofrido pela raça branca. Se faz necessária uma estrutura complexa, histórica e, acima de tudo, real para que se exista o racismo. Portanto, a etimologia pode ser levada em consideração quando comparada única e exclusivamente ao dicionário Aurélio.

    Por isso, não há qualquer intenção da comédia, enquanto ferramenta de opressão, em descaracterizar o branco em agente nocivo da sociedade. Normalmente se é encontrado em posse de grandes cargos socioeconômicos, vivendo uma vida de luxúria ou, de maneira geral, em posse de privilégio. Há uma reclusa de forma até a gerar um sistema de opressão dentro mesmo do âmbito da "piada". Por que em empregos empresariais ditos tradicionais (escritório e paletó) o chefe nunca é zoado? Além de que a raça branca não é vista como piada, e sim como superior, há uma grande chance de ser considerado falta de desrespeito. Ao contrário das piadinhas contra agentes de limpeza dentro da MESMA empresa.

   

3. Etimologia x Historicidade. 

    Um dos argumentos mais requeridos, importantes e, claro, repetidos, de Danilo é o fato da palavra "macaco" assim como a palavra "banana" são apenas o que são, sem peso quanto a um agente negro. Não é preciso correr tantas palavras ou investigar tantos assuntos para isso se provar irremediavelmente falso.

    O doutor (médico) Renato Sabatinni, biomédico e PhD em fisiologia diz em seu texto "Craniologia, Uma Pseudociência Médica":

"Gall construiu sua teoria ao realizar extensas observações e medidas em crânios de parentes, amigos, estudantes, cientistas, escritores e até criminosos. Suas pesquisas se baseavam em um preconceito comum, na época, que o grau de inteligência era relacionado ao tamanho do cérebro."

    Franz Gall, desenvolvedor da primeira das pseudociências mais racistas que já foram escritas em solo terreno e pai da eugenia nazista, começou em 1796, teoria essa (Frenologia) que foi de extrema influência dentre os anos de 1810 à 1840 (Talvez o político "Arthur do Val" dissesse que até hoje.). Esta pseudociência alegava que era possível determinar características sociais e econômicas de um individuo pelo tamanho do seu crânio. Algo pra eles lógico, mas que se assemelhava ao temor de acreditar em Deuses do lago, sol e nuvens (teor de credibilidade).

    Sua sucessora, nessa linhagem produtiva e nada nociva, foi a craniologia. Sabatinni complementa:

"Um das muitas pseudociências sucessoras da frenologia foi a craniologia, que advogava o uso de medidas quantitativas precisas de características cranianas a fim de classificar pessoas de acordo
com a raça, temperamento criminal, inteligência, etc. A craniologia se tornou influente durante a era vitoriana, e foi usada pela primeira vez pelos britânicos, para justificar o racismo, a colonização e a
dominância de "raças inferiores", tais como os irlandeses e tribos negras da África." 

Além disso, também diz:

"Raças "inferiores" eram ditas prognáticas, tal como os chimpanzés e macacos, de modo que eles eram considerados como sendo mais próximos a estes animais do que aos demais europeus."

    Com essa frase chegamos a primeira imagem deste 'post'. Eram comuns e rotineiras atividades de craniologia. Pela sua fácil aplicação, em cargos de extrema "importância", era assegurado que as pessoas que posteriormente entrariam como agentes principais dos cargos não possuíssem características semelhantes a seres ditos não evoluídos.

    (Coincidentemente)Os escolhidos e amaldiçoados com essa penalidade quase que irremediavelmente mortal foram os negros. Novamente, de acordo com a banca eugenista, eram inferiores por se parecerem com símios. 

    O conhecimento histórico é necessário para que o privilégio branco seja desconstruído e casos como esse não aconteçam nunca mais em nossa sociedade. Quando um negro é comparado com um macaco, não, não é apenas uma palavra. Quando um branco manda um branco "comer banana", não, não é só uma fruta.

Eu peço por favor, leia com atenção o texto abaixo. (também retirado do texto de Sabatinni.) 

"A generalização final e uma das mais nocivas e absurdas de todas, não tardou muito a ocorrer e foi a avaliação “científica” das características de personalidade baseada na aparência, graças a um
médico, antropólogo e criminologista italiano, chamado Cesare Lombroso (1835-1909). Sua teoria de antropologia criminal associava determinadas características corporais ao tipo de criminoso.Lombroso foi uma personalidade altamente influente nos sistemas judicial e policial da Itália e em  muitos outros países, inclusive no Brasil. Aqui, ainda na década de 1950, muitos juízes ordenavam a realização de análises antropométricas "lombrosianas" dos réus em processos criminais, que
posteriormente eram usados pela acusação em julgamentos ! E, por incrível que pareça, o lombrosianismo é ensinado até hoje em algumas faculdades de direito."

    Eu não possuo mais tantas palavras que caibam na ignorância, soberba e absurdez mental de uma pessoa que entende o racismo e a etimologia racista como "mimimi". É evidente, claro e objetivo que, infelizmente, isso perpassa até os dias de hoje, e é impactante tão quão absurdo.

     Mais que necessário entender, é compreender as questões que envolvem e se transcendem de maneira intrínseca às "piadas" comumente proferidas sobre pretos, negros, pardos etc. Assim como também piadas de cunho machista, mas isso é história para outro livro. Então é bom deixar claro que, além de descriminatório, é sim RACISMO, historicamente, socialmente, e cientificamente. E uma maneira de provar (além), segue nesta aspas do doutor:

"Um uso infamante e mais bem conhecido da antropometria pseudocientífica foi feito pelos antropólogos e médicos nazistas, os quais, no Departamento de Higiene Racial do Ministério do Interior e no Escritório para o Esclarecimento da Política Populacional e Bem-Estar Racial, propuseram a classificação de arianos e não-arianos com base nas medidas quantitativas do crânio." 

     Uma racista o tanto que é abstrata e inexistente, mas infelizmente usada.

 

4. Conclusão.

    Assim como Daniloparticipantes de partidos políticos nazistas compartilham de seus ideais.


     O da esquerda, Renan Santos do partido "Movimento Brasil Livre", é um nazista assumido. Em suas redes sociais já teve falas completamente destrutivas e eugenistas. Seguem algumas:

"Você sabe que as favelas aumentaram nos últimos 12 anos no brasil? (...) O Brasil é um país que se faveliza. Não é que ele está desfavelizando, ele está se favelizando. (...) É o problema social mais grave de todos. Favela envolve crime organizado, favela envolve baixa produtividade, envolve família destruída, envolve saneamento básico ruim, envolve enfeiamento das cidades, envolve informalidade total completa e irrestrita, envolve baixos índices de educação. E o pior, os problemas da favela se irradiam para os outros bairros. (...) Você quer resolver o problema do Brasil? Você tem que destruir a lógica favela."

Na íntegra: Vídeo 1

"Hoje é o dia da favela! Dia 4 de novembro. Se tem dia da favela, tem que ter dia da dengue, tinha que ter dia do jogo do tigrinho, porque começa assim. (...) Favela é problema! Favela é um problema que tem que ser resolvido. Favela não tem que existir."

Na íntegra: Vídeo 2

"Isso aqui tá viral e fico muito feliz. Favelas tem que ser destruídas — posto que humilhantes para quem lá habita. Precisamos de bairros, de tráfico destruído e inclusão social. É uma guerra civilizacional"

Na íntegra: Tweet

    As "piadas" de Danilo Gentili, e de muitos outros, se alinham exatamente com esta ideologia NOCIVA e NAZISTA. Não vou sequer comentar sobre os comentários dos tweets, vídeos e notícias. E sinceramente, não aconselho, faz mal.

    Tudo isso gera um fortalecimento gigantesco dentro desta bolha de neo-nazistas, que, posteriormente aparecerão em eventos contra negros, imigrantes, mistura de raças e por aí vai. Não podemos nos calar quando vemos esse tipo de coisa sendo propagada, isso é o início de coisa muito pior.

    Se conscientize e conscientize a quem puder e estiver ao seu alcance, é de importância o tanto que é necessário.

 


Se você leu até aqui, muito obrigado! Meus tantos agradecimentos. Os artigos e textos você encontra na íntegra abaixo:

Bibliografia:

1. Craniologia, Uma Pseudociência Médica - Renato Sabbatini.

2. “#SOMOS TODOS MACACOS”. O PRECONCEITO RACIAL NO FUTEBOL: DISCURSO E MEMÓRIA - Aline dos Santos.

3. Somos Todos Macacos e todos mestiços: visibilidade e naturalização do racismo - Maria Helena Weber.

 

 

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