Paraty me ensinou o que é amor.
Eu fiquei pensando sobre como iria iniciar esse texto há algumas boas horas. Prefiro começar explicando onde encontrei essa ideia, a cena é a seguinte: Entro na Casa de Cultura de Paraty para uma apresentação de um grupo de música (uma banda da graduação da UFRJ). Assim que piso na sala, riqueza, vestimenta e tudo o que há de bom, não para mim. Eram comidas, sobrenomes, roupas de marca e peles brancas. Naquele momento tinha um grande problema, minha roupa. Não porque minha roupa era feia, exatamente, mas porque eu não tinha tomado banho. O dia foi extremamente longo, cansativo e a pousada era muito longe, por isso não tive como. O lugar EXALAVA perfume e cada peça de roupa de cada pele branca era consistentemente melhor que a última. Naquele momento eu tive um lapso, um lapso de tristeza, solidão, descontentamento, desorientação e quaisquer outros adjetivos de cunho negativo que você possa pensar. E talvez você possa estar simplesmente estranhando minha reação, o que seria completamente válido, mas eu explico. Eu vim a trabalho para um evento em Paraty, no centro mesmo. E nesse evento aconteceram algumas coisas: má alocação, má organização do evento entre muitos outros problemas. E "estaria tudo bem" se fosse assim com todos, mas não foi. Os alunos universitários foram muito lesados e pegaram as piores locações. Pra vocês terem uma pequena ideia, meu tênis de 400 reais que minha avó me deu de presente teve o seu tecido interior rasgado de TANTO uso indevido, no caso correr (oi mãe). Adivinha quem ficou com os melhores quartos, melhores comidas e melhor suporte? Exatamente, decanos, professores etc. E isso me doeu, me doeu muito. Ver a clara demonstração de superioridade e subversão dos conceitos de ética sob pessoas academicamente "menores". Assim que eu entrei naquela sala, senti meu cheiro de suor e vi tudo aquilo, eu chorei. Precisei sair e chorei, chorei até acabar. Chorei porque não via minha gente. Chorei porque não encontrava corpos negros em posse de poder. Chorei porque não encontrava shorts nem chinelos, apenas calças de alfaiataria e sapatos fechados de couro. Chorei por conta do meu quarto mofado, da minha goteira no quarto e por causa do preconceito que meu amigo sofria. Chorei porque eu via mais americanos, britânicos, italianos, franceses, japoneses, coreanos do que brasileiros na rua. Chorei porque essa cidade foi montada pra quem tem DINHEIRO. Chorei por tudo. Tudo isso me atingiu. E por que "Paraty me ensinou sobre amor", então? Me ensinou amores, na verdade. Me ensinou que quem não te ama não faz questão de te assegurar. Também me ensinou que o amor é relativo e muitas vezes possui recorte de raça, gênero e dinheiro. Mas que mesmo nas piores situações o amor ainda floresce nas frestas das pedras jogadas sob a sua cabeça. Que existem pessoas dispostas à fazer da sua vida algo melhor. Que mesmo que não consigam mudar o mundo, ainda conseguem suavizar e dividir as dores para que não fique tão pesado.
3 dias, 3 dias foi o suficiente pra Paraty me mostrar que o mundo na selva não é tão simples, é duro e violento, mas, não impossível de ver beleza.
Comments
Post a Comment